Jardim de Polinizadores na Varanda: Atraia Abelhas e Borboletas

Muita gente monta a horta pensando só na colheita e esquece de quem faz a colheita acontecer. Sem abelha, sem borboleta e sem os outros insetos que andam de flor em flor, boa parte do que a gente cultiva em vaso não frutifica, ou frutifica pouco e torto. Atrair esses visitantes para uma varanda de apartamento não pede quintal nem experiência com jardinagem. Pede plantas bem escolhidas, floração distribuída pelo ano e atenção a alguns erros que espantam justamente quem a gente quer ver por perto.

Aqui está o que funciona na prática para quem cultiva em espaço pequeno: quais flores puxam abelhas e quais puxam borboletas, como montar um vaso ou jardineira com esse objetivo, se compensa fazer um hotel de abelhas solitárias numa sacada e o que pensar antes de trazer abelhas jataí para casa. Vale também dizer por que isso passa do jardim. O Brasil tem cerca de 250 espécies de abelhas sem ferrão catalogadas, de um total de aproximadamente 3.000 espécies de abelhas no país, e estudos citados pela Epagri/Ciram indicam que essas nativas respondem pela polinização de 30% a 80% das espécies vegetais nativas, conforme o bioma. Um vasinho de lavanda na sacada é pouco perto disso, claro, mas somado a milhares de outras varandas numa cidade ele pesa de verdade para essas populações.

Por que a varanda importa para abelhas e borboletas

A cidade grande é um lugar difícil para polinizador. As áreas verdes ficam picotadas, a variedade de flores é pequena, tem inseticida em jardim público e particular e o concreto esquenta tudo. Cada um desses fatores encolhe o espaço onde abelhas e borboletas comem e, às vezes, onde se reproduzem. Segundo a Embrapa, o serviço de polinização feito por abelhas nativas no Brasil vale na casa das dezenas de bilhões de reais por ano, e no mundo cerca de 75% das culturas agrícolas dependem em algum grau de polinização animal. Isso chega rápido ao bolso, porque mexe no preço e na oferta de fruta, verdura e grão.

Uma varanda com flores nativas ou melíferas bem escolhidas vira um posto de abastecimento no meio dessa malha picotada. Ela não faz o papel de uma reserva florestal, obviamente, mas funciona como um pedacinho de corredor ecológico urbano, sobretudo em prédio cercado de outros prédios, onde qualquer fonte de néctar concentrada recebe visita depressa. Quem já deixou um vaso de manjericão florescer na sacada conhece a cena: em poucos dias chegam umas abelhinhas pretas e miúdas, em geral jataís, trabalhando nas flores desde cedo.

Plantas que atraem abelhas para o vaso

Abelha prefere flor simples, com néctar fácil de alcançar e cor viva, de preferência azul, roxa, amarela ou branca. As flores muito dobradas, aquelas de pétalas em camadas que lembram uma rosa cheia, costumam esconder o miolo e atrapalhar o acesso. A mais bonita aos nossos olhos nem sempre é a mais útil para elas.

Ervas aromáticas que as abelhas adoram

Com pouco espaço, eu começaria pelas ervas, porque elas servem duas vezes: vão para a panela e, quando deixadas florir, alimentam as abelhas. Alecrim, manjericão, orégano e tomilho são os clássicos, mas quem se destaca é a lavanda, que atrai abelha em quantidade e ainda perfuma a varanda toda. Um pacote com 50 sementes de lavanda-inglesa-verdadeira (Lavandula angustifolia) sai por volta de R$ 8,00 em loja especializada, e a planta quer sol pleno e solo bem drenado, sem água parada. Só tem um detalhe: essas ervas costumam ser podadas antes da flor para render mais folha. Então separe pelo menos um vaso ou uma muda inteira para florescer à vontade e deixe o restante para a cozinha.

Flores perenes e anuais para abelhas

Entre as flores, o cambará (Lantana camara) e a verbena (Verbena hybrida) gostam de sol pleno e solo bem drenado e florescem quase o ano inteiro onde o clima é ameno. O cosmos (Cosmos bipinnatus) é anual, fácil de cultivar e se auto-semeia: depois que solta as sementes no vaso, é bem provável que apareçam mudinhas sozinhas na estação seguinte. A petúnia-perene (Petunia integrifolia) vai bem tanto no sol pleno quanto na meia-sombra, o que resolve a vida de quem tem varanda que não pega sol o dia todo.

Se houver lugar para um arbusto maior em vaso grande, o hibisco (Hibiscus rosa-sinensis) pede sol pleno e solo rico e bem drenado, e as flores grandes, com os estames bem à mostra, chamam abelhas de porte maior. A caliandra (Calliandra tweedii), de flores que parecem pompons vermelhos, aceita sol pleno ou meia-sombra e recebe muita visita de abelha e de beija-flor. Duas opções que quase ninguém lembra são o malvavisco (Malvaviscus arboreus), arbusto perene que chega a 2 metros e floresce quase sem pausa em vaso grande, e a flor-de-coral (Russelia equisetiformis), arbusto tropical de ramos finos e pendentes que fica ótimo em jardineira suspensa e floresce praticamente sem parar no calor.

Plantas que atraem borboletas para a varanda

A borboleta enxerga de um jeito diferente da abelha. Ela vê bem o vermelho e o laranja, cores que a maior parte das abelhas mal distingue, e gosta de pousar em flores com uma plataforma razoável, como as da família das margaridas e dos girassóis, onde consegue firmar as patas enquanto suga o néctar com a probóscide.

A zínia (Zinnia elegans) não pode faltar nessa lista. É anual, colorida, fácil de cultivar, quer sol pleno e solo bem drenado e segue florindo por meses se você for tirando as flores murchas. A estrela-do-egito (Pentas lanceolata) também é tropical, aceita sol pleno ou meia-sombra e tem flores pequenas agrupadas em estrela que viram pista de pouso para borboletas miúdas. A alegria-dos-jardins (Salvia splendens), perene e de sol pleno, e a jacobínia (Justicia carnea), arbusto perene que prefere meia-sombra, fecham bem o grupo, junto com a primavera (Bougainvillea glabra), trepadeira perene de sol pleno que atrai borboletas e também abelhas grandes e mamangavas.

A planta da borboleta-monarca

Para quem quer mais do que a visita da borboleta adulta e deseja abrigar o ciclo inteiro, lagarta incluída, a indicação é a paina-de-seda ou capitão-de-sala (Asclepias curassavica). Ela é a planta hospedeira da borboleta-monarca no Brasil, e registros de borboletário mostram lagartas de monarca comendo as folhas dessa espécie antes de seguir para a fase de crisálida. Antes de plantar, saiba que a folhagem é tóxica se ingerida por pessoas ou animais domésticos. Por isso ela não serve para quem tem cachorro ou gato com acesso à varanda, nem para vaso ao alcance de criança pequena. Tirando essa ressalva, o manejo é simples, ela floresce em vaso médio e aguenta bem o calor.

Plantas de clima mais frio, para quem mora no Sul

Muito do que se escreve sobre jardim de polinizadores em vaso vem de países de clima temperado, e várias dessas espécies também se dão bem nas regiões mais frias do Brasil, como o Sul e partes da Serra da Mantiqueira, embora sofram no verão tropical muito quente e úmido. A monarda (Monarda sp.), com flores que lembram fogos de artifício, chega a uns 60 cm de altura e é muito procurada por abelhas. A equinácea (Echinacea sp.) vai bem em vaso desde que tenha bastante sol e boa drenagem, e depois da floração deixa sementes nas cabeças secas, que alimentam pássaros no outono. O rudbéquia (Rudbeckia sp.), de pétalas amarelas e centro escuro, e a arruda-azul ou agastache (Agastache sp.), perene que gosta de sol pleno, completam a lista para quem já cultiva onde o inverno é mais marcado. Fora dessas regiões frias, porém, essas espécies costumam durar pouco e dar mais trabalho, e no clima tropical as nativas e tropicais que citei antes costumam valer mais o investimento.

Como montar o vaso ou jardineira de polinizadores

Vaso, substrato e drenagem

Quase todas as melíferas deste texto pedem o mesmo: solo bem drenado e sol direto por pelo menos quatro a seis horas por dia. Um vaso com furo de drenagem generoso, uma camada de argila expandida ou brita no fundo e substrato leve, misturado com um pouco de composto orgânico, atende praticamente todas. Fuja do pratinho com água parada embaixo do vaso, porque o encharcamento apodrece a raiz rápido, sobretudo em lavanda e alecrim, que vêm de regiões de clima mais seco.

Floração escalonada o ano todo

Um erro frequente é plantar tudo junto, ter uma explosão de flores num mês e depois passar o resto do ano com a varanda sem nada para oferecer aos polinizadores. O melhor é escalonar, combinando anuais de ciclo rápido, como zínia e cosmos, com perenes que florescem de forma mais espalhada, como lavanda, salvia e caliandra. Enquanto uma espécie descansa, outra está em flor, e a varanda mantém néctar disponível praticamente o ano inteiro. É isso que faz abelhas e borboletas voltarem com frequência, em vez de passarem uma vez e sumirem.

Hotel de abelhas solitárias: como fazer

Nem toda abelha vive em colônia com rainha e mel guardado. A maioria das espécies, aliás, é solitária: cada fêmea constrói sozinha a própria célula de cria, geralmente dentro de um canudo, de uma cavidade na madeira ou de um buraco no chão. O hotel de abelhas solitárias é uma estrutura artificial que oferece esses canudos e cavidades prontos, e ele cabe muito bem numa varanda. Você não precisa manejar colônia e não corre risco de levar muitas picadas, já que essas abelhas vivem sozinhas e raramente picam.

Dá para montar com material reciclável. Uma caixa de madeira ou um tubo de PVC cortado ao meio vira a armação, que você enche com pedaços de bambu, gravetos ocos ou até tubos de papelão enrolado. O que importa é deixar cada canudo fechado numa ponta, imitando uma cavidade natural, e aberto na outra, virado para fora. Prenda a estrutura num canto protegido da chuva direta, com um pouco de sol de manhã, e mantenha a entrada desobstruída. Não há o que alimentar nem limpar todo dia. O hotel se vira sozinho, e a ocupação costuma começar junto com as primeiras plantas floridas por perto, quando as fêmeas passam a usar os canudos disponíveis.

Uma dica que faz diferença: troque os bambus a cada uma ou duas estações, porque cavidade muito usada junta fungo e parasita e acaba afastando em vez de atrair. Se for fazer o projeto com criança, chame ela para ajudar na montagem, com um adulto cuidando da hora de cortar bambu ou mexer em ferramenta, e aproveitem para observar juntos quais espécies vão aparecendo nas semanas seguintes.

Dá para criar abelhas jataí na varanda?

Dá, desde que você conheça alguns cuidados antes de levar uma colônia para casa. A jataí (Tetragonisca angustula) é a abelha sem ferrão mais comum nas cidades brasileiras, por ser pequena, mansa e se ajeitar bem em caixas compactas. No Brasil, o manejo de abelhas nativas segue a Resolução CONAMA nº 496/2020, e antes de instalar uma colônia é bom consultar o órgão ambiental do seu estado, porque as regras de cadastro mudam de um lugar para outro.

Quanto à estrutura, a câmara de cria de uma colônia de jataí costuma medir entre 10x10x10 cm e 12x12x12 cm, e a câmara de mel é um pouco maior. Há modelos de isopor ou PVC, mais indicados para regiões frias, e modelos de madeira, como o chamado modelo PNN, que são os mais tradicionais. A entrada da caixa deve ser pequena, imitando o batume que a própria colônia faz na natureza, porque isso ajuda a barrar os forídeos, moscas parasitas que são o principal problema sanitário dessas colônias.

Na varanda, coloque a caixa num lugar com sombra parcial, longe do sol forte do meio-dia e da chuva direta, sobre uma superfície firme e nivelada e de fácil acesso para inspeção. Essa inspeção não precisa ser frequente. A cada dois ou três meses você confere se a rainha está lá, como andam as reservas de mel e pólen, se há sinal de doença e se apareceu a temida larva de forídeo. Quando a floração estiver fraca, dá para complementar com xarope de açúcar na proporção 1:1, servido num alimentador pequeno dentro da caixa. Uma colônia bem estabelecida produz entre 1 e 2 litros de mel por ano, e esse mel costuma ser vendido de R$ 80,00 a mais de R$ 200,00 o litro, conforme a região, o que mostra quanto vale esse pedacinho de espaço na varanda.

Erros comuns que afastam os polinizadores

O erro campeão é passar inseticida de amplo espectro na varanda por causa de pulgão ou cochonilha e matar, de quebra, quem vinha polinizar as flores. Sempre que der, prefira o manejo manual, tirando as pragas com a mão ou lavando as folhas com água e sabão neutro, e guarde o produto químico para casos graves de verdade, aplicado à noite, quando abelhas e borboletas já se recolheram.

Outro deslize é podar as melíferas antes da flor, coisa comum em quem planta erva de tempero e corta tudo antes de florir. Deixar ao menos parte da planta completar o ciclo até a flor é o que garante comida para os polinizadores. A falta de água também afasta visitantes: nos dias muito quentes, um pratinho raso com água e umas pedrinhas na superfície, para as abelhas beberem sem se afogar, mantém a varanda atrativa mesmo fora do pico de floração. Por último, ter uma única espécie em flor reduz a variedade de visitantes. Quanto mais diverso o cardápio de cores e formatos, mais tipos de abelha e borboleta aparecem.

Tem ainda quem escolha só variedades ornamentais modernas, criadas para ter flor dobrada e cor exagerada, sem se perguntar se aquilo oferece néctar acessível. Antes de comprar uma muda pensando nos polinizadores, procure a variedade mais próxima da espécie original. Cultivares muito modificados, feitos só para brilhar na vitrine, costumam produzir menos néctar ou esconder o acesso a ele.

Perguntas Frequentes

Preciso de quintal para montar um jardim de polinizadores? Não. Uma varanda ou peitoril de janela com pelo menos quatro horas de sol direto já recebe boa parte das espécies deste texto, principalmente as de porte pequeno e médio, como lavanda, zínia, verbena e pentas.

Abelhas atraídas para a varanda picam? As nativas sem ferrão, como a jataí, não picam. No máximo dão uma mordidinha leve quando manuseadas de perto, o que quase nunca incomoda. As abelhas com ferrão só picam quando se sentem ameaçadas, então evitar movimentos bruscos perto delas resolve a maioria das situações.

Quanto tempo demora para as primeiras visitas aparecerem? Depende da vizinhança. Em áreas urbanas com alguma vegetação por perto, plantas melíferas em flor costumam receber visita em poucos dias, às vezes já na primeira semana.

Posso misturar plantas para abelhas e para borboletas no mesmo vaso ou jardineira? Pode, e eu recomendo, já que várias espécies, como a caliandra e a primavera, atraem os dois grupos ao mesmo tempo e, em alguns casos, beija-flores também.

Preciso de licença para ter um hotel de abelhas solitárias? Não. O hotel não envolve manejo de colônia nem posse de exemplares, então fica fora das exigências de cadastro que valem para a criação de abelhas sem ferrão, como a jataí.

Vale a pena plantar Asclepias se eu não tenho interesse em borboleta-monarca especificamente? Vale, porque além de hospedar a monarca a planta dá néctar acessível a outras borboletas e a algumas abelhas. Só reforço o cuidado com pets e crianças, por causa da folhagem tóxica.

O que fazer se aparecerem lagartas comendo as folhas das plantas para borboleta? Deixe comer. Uma planta hospedeira como a Asclepias existe para isso: a lagarta se alimenta das folhas, vira crisálida e sai como borboleta adulta. Perder algumas folhas faz parte.

Para fechar

Um jardim de polinizadores na varanda não precisa ser grande nem caro. Ele começa com um vaso de lavanda ou um pé de manjericão que você deixa florir, cresce com zínia, pentas e caliandra e pode chegar, se a curiosidade bater, a um hotel de abelhas solitárias ou a uma colônia de jataí devidamente regularizada. O retorno vem rápido na forma de movimento e cor na varanda e, de um jeito mais discreto, em frutas e flores que vingam melhor para quem mantém horta por perto.

Para continuar montando a varanda nessa linha, vale complementar com as plantas nativas brasileiras para apartamentos urbanos, que combinam bem com as melíferas deste texto, e com as flores comestíveis para cultivar na varanda, já que muitas espécies comestíveis também são ótimas fontes de néctar. E se o problema da sua varanda for mais mosquito do que falta de polinizador, o guia de plantas que repelem mosquitos ajuda a equilibrar as duas coisas no mesmo espaço.

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